RACISMO E SEXISMO NO BRASIL
Eduardo De Souza Paiva
10/09/2023
O conceito de “raça” serve apenas para estabelecer classificações, primeiro foi usada para animais e plantas, depois emergiu adaptada para diferenciar seres humanos com culturas e etnias diferentes, colocando o europeu no papel de “homem universal” como explica o professor Silvio de Almeida em sua obra Racismo Estrutural (Almeida, p.18). Repetir as narrativas dos colonizadores hoje mina toda luta que vem sendo colocada em pauta para um melhor entendimento das formas sociais estruturantes que foram impostas, primeiro tentando fundamentar através da ciência a “inferioridade” dos negros e indígenas em relação aos brancos europeus, também foi jogada a culpa da escravidão nos próprios negros, com frases como: “Os próprios negros vendiam uns aos outros”, que não passa de uma falta de conhecimento ou puro cinismo, sendo que foi criado uma demanda por parte dos europeus fazendo assim com que os africanos vendessem em primeiro momento seus excedentes de prisioneiros de guerra, fazendo assim do ser humano negro um produto, e a partir desse momento em que o humano se torna mercadoria, tudo é mercadoria.
É nesse contexto que a raça emerge como um conceito central para que a
aparente contradição entre a universalidade da razão e o ciclo de morte e
destruição do colonialismo e da escravidão possam operar simultaneamente como
fundamentos irremovíveis da sociedade contemporânea. Assim, a classificação de
seres humanos serviria, mais do que para o conhecimento filosófico, como uma
tecnologia do colonialismo europeu para a submissão e destruição de populações
das Américas, da África, da Ásia e da Oceania.
(Almeida,2019, I, P.20)
(Fanon,1956, p.36) “Contudo, esse elemento cultural preciso não
se enquistou. O racismo não pode esclerosar-se. Teve que renovar, se matizar,
de mudar de fisionomia, teve que sofrer a sorte do conjunto cultural que
informava.”
(West, 1993, V, 96) “O problema urgente da pobreza dos negros
deve-se principalmente á distribuição de riqueza, poder e renda – distribuição
esta que sofreu influência do sistema racial de castas, que até duas décadas
atrás negava oportunidade á maioria dos negros “qualificados”.”
Após a segunda guerra
mundial os eua tentaram de todas as formas afastar-se da estética nazista e
fazer parecer ser um opositor desse pensamento neofascista, uma mentira que a
mídia e os propagandistas do imperialismo sustentam até hoje. Incontáveis
nazistas fugitivos de guerra pouco tempo depois foram trabalhar para o império
norte americano dando assim continuidade nos seus terríveis projetos de guerra
e caos.
(González,2021, p.72) “Agora,
em face da resistência dos colonizados, a violência assumirá novos contornos,
mais sofisticados, chegando as vezes, a não parecer violência, mas “verdadeira
superioridade”
É necessário trazer todo esse debate e adequar as
análises e conceitos para o nosso tempo, para entender melhor as causas e
efeitos de toda essa estrutura que nos envolve e retira toda a possibilidade de
um internacionalismo. Na teoria todos sabem que latinos não são considerados
brancos para os euro/americanos, mas na pratica os “brancos” brasileiros não
querem abdicar de seus privilégios enquanto pertencente da branquitude no nosso
país.
Seja por ingenuidade ou propositalmente, isso deve
acabar, pois a nossa sociedade ainda vive uma segregação onde os negros, pardos
e indígenas são deixados de lado pelos supostos brancos, pois não se relacionam,
a não ser que seja na condição de servir, e isso não se enquadra apenas para a
classe média alta (pequena-burguesia), mas também grande parte do proletariado que usa e abusam da sua “brancura”
para se beneficiar e com isso todo esforço para atingir os objetivos de vida
são infinitamente mais fáceis do que para os negros em geral.
(González,
2021, p.68) “Nesse contexto, todos os brasileiros ( e não apenas
pretos e pardos) são ladinos-amefricanos.”
É restrito o número de
negros nos espaços das universidades em todo o Brasil, mesmo com a política de
cotas, o jovem negro abandona quase sempre a escola para ir trabalhar o
dia todo, para ganhar um salário que é mínimo, podendo assim ajudar sua família
que sofre, pela forma que foi montada as estruturas de poder e dominação. Sem
propriedade privada, sem poder de compra os negros se sentem fracassados e logo
desistem dos seus sonhos porque tem que comer hoje, não se tem tempo de fazer
planos quando a barriga ronca. No Brasil para começo de conversa deve se fazer
reforma agrária e regular as mídias e redes sociais para uma soberania contra
guerra hibrida. E caso as big-techs não aceitem, pois o Estado que crie seus próprios
aplicativos para atender toda essa demanda e transformar em lucro estatal ao
invés de privado. Fortalecimento e expansão do sistema ferroviário para
diminuir os custos de transporte e acabar com o monopólio das transportadoras impondo
soberania do Estado perante aos super-ricos taxando grandes heranças também
fazem parte do plano de Revolução Reformista Brasileira. Usando de referência à
experiência Chinesa, em algumas poucas questões.
Na Unila a dinâmica é
diferente, estudantes de dezenas de países da América Latina, Caribe, África
dentre outros fazem com que o número de negros estrangeiros seja alto, o que é
um ponto positivo. O foco de análise proposto abrange apenas o contexto dos
estudantes brasileiros. O projeto da Universidade Federal da Integração
Latino-Americana é lindo e sua bibliografia está possibilitando uma possível
gênese de novas construções teóricas com uma visão holística, fundindo então o
pensamento ocidental com nossos saberes “subalternos” adicionando tudo aquilo
que foi negado pelos colonizadores.
Em Foz do Iguaçu, uma
cidade com uma fronteira com a Argentina e Paraguai, em um estado localizado,
mas ao Sul do país, um local perfeito para o surgimento de todas essas
contradições, visto que do Paraná pra baixo o processo de colonização foi
inicialmente diferente, resultando em um número maior de “brancos” nessa
região. E coincidentemente, essa região tem em sua maioria ideólogos e
propagandistas das ideias neo-fascistas que ganham status e adentram no sistema
publico brasileiro.
Esse racismo estrutural
se faz ainda pior quando explicado do ponto de vista de mulheres como bell
hooks e Lélia González, que teorizam as problemáticas de forma bastante clara.
Como o cotidiano das Intelectuais Negras que são mães solteiras, ou levam
uma vida dupla até mesmo tripla, estudando, trabalhando e cuidando dos filhos,
enquanto o intelectual homem negro quando precisa poder se isolar para
dedicar-se ao seu trabalho intelectual sem ser julgado pela sociedade, pois
homens não são colocados com obrigatoriedade de ajudar no dia a dia com as
crianças.
Outro ponto que não pode
passar batido é a falta de reconhecimento da mulher negra dentro da academia,
isso quando consegue com muito esforço adentrar nessas instituições são vistas
com desconfiança. Num local onde os professores são na maioria das vezes
brancos. Sofrem assédios sexuais, passam por todos os tipos de violência
psicológica seja ela explicita ou micro-agressões.
É preciso romper com toda e qualquer manifestação de caráter contra-revolucionário, seja ela qual for, também é preciso saber analisar de forma critica todas as problemáticas do cotidiano, onde por parte dos negros e indígenas já é sofrida na pele todos os dias, brancos devem abdicar de seus privilégios para além das redes socias. Seguindo o paradigma para uma equidade de todos brasileiros.
BIBLIOGRAFIA:
ALMEIDA, Silvio. Racismo
Estrutural, Feminismos Plurais, editora Jandaíra, 2019
CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre
o Colonialismo, editora Sá da Costa, Lisboa, 1977
FANON, Frantz. Em defesa
da Revolução Africana, Racismo e Cultura.
Editora Terceiro Mundo,1964
GONZÁLEZ, Lélia,. Racismo
e Sexismo na Cultura brasileira. Revista ciências Sociais Hoje, Rio de Janeiro,1984
hooks, bell.
Intelectuais Negras. Ano 3 2 semestre de 1995
GONZÁLEZ, Lélia.
Amefricanidade. Revista de Estudos e Pesquisas sobre as Américas,2021
FANON, Frantz,
Pele Negra, Mascaras brancas. EDUFBA, Salvador, 2008
FANON, Frantz. Los
Condenados de la Tierra. Fundo de Cultura Econômica México,1961
WEST, Cornel. Questão de Raça. Companhia de Bolso, São Paulo,2021
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