UMA REFLEXÃO SOBRE A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE VOLUME I DE Foucault


 

Introdução 

 

A partir do século XVI, foi colocado em prática estratégias para o controle das massas, colocando a sexualidade para ser julgada através desse dispositivo de manutenção de poder, colocando regras que dizem o que é socialmente aceito, permitido ou repreendido. Com o cristianismo tornando-se religião oficial, as igrejas e escolas instruíam as famílias, que eram induzidas a manifestar sua sexualidade, e quando alguma pessoa fugia dessa norma era imediatamente punido. 

 

 

É necessário deixar bem claro: Não pretendo afirmar que o sexo não tenha sido proibido, bloqueado, mascarado ou desconhecido desde a época clássica; nem mesmo afirmo que a partir daí ele o tenha sido menos do que antes. Não digo que a interdição do sexo é uma ilusão; e sim que a ilusão está em fazer dessa interdição o elemento fundamental e constituinte a partir do qual se poderia escrever a história do que foi dito do sexo a partir da Idade Moderna. Todos esses elementos negativos - proibições, recusas, censuras, negações - que a hipótese repressiva agrupa num grande mecanismo central destinado a dizer não são, sem dúvida, somente peças que tem uma função local e tática numa colocação discursiva, numa técnica de poder, numa vontade do saber que estão longe de se reduzir a isso.   

                                                                       (Foucault,2022, p.17) 

 

 

Já no século XVII, essa repressão por parte das sociedades burguesas ficou mais acentuada e seus objetivos de dominação da questão sexual no plano real através da linguagem e a circulação dos discursos. Com todas essas proibições o sacramento da confissão se tornou uma das principais ferramentas de controle dos lares e da educação sexual, falando sobre seus pecados e botando terror nos fiéis usando seus desejos e imaginações para direcionar a forma com que as relações deveriam ser. 

Essa pureza buscada pela igreja colocava a penitência como o papel de purificação e impedia as pessoas de serem elas mesmas.  

 

 

 

O essencial não são todos esses escrúpulos, o “moralismo” que revelam, ou a hipocrisia que neles podemos vislumbrar, mas sim a necessidade reconhecida de que é preciso superá-los. Deve-se falar de sexo, e falar publicamente, de uma maneira que não seja ordenada em função da demarcação entre o lícito e o ilícito, mesmo se o locutor preservar para si a distinção (é para mostrá-lo que servem essas declarações solenes e liminares) ; cumpre falar do sexo como de uma coisa que não se deve simplesmente condenar ou tolerar, mas gerir, inserir em sistemas de utilidade, regular para o bem de todos, fazer funcionar segundo um padrão ótimo 

                                                                  (Foucault, 2022, p.27) 

 

 

Devemos administrar o sexo e não o julgar, criar procedimentos para gerir de forma que não seja para oprimir, mas sim orientar jovens e adultos de como as coisas realmente são e poder evitar problemas como doenças. Apoiar pessoas trans que sempre sofrem por não seguirem essa heteronormatividade imposta. O estado deve assumir o papel de criar leis que busquem uma melhor administração das questões sexuais, pois além de tudo que já foi dito ao longo dessa pequena pesquisa devemos levar em conta que também se trata de uma questão se saúde pública. 

 

 

Os racismos dos séculos XIX e XX encontrarão nelas alguns de seus pontos de fixação. Que o Estado saiba o que se passa com o sexo dos cidadãos e o uso que dele fazem e, também, que cada um seja capaz de controlar sua prática. Entre o Estado e o indivíduo o seco tornou-se objeto de disputa, e de disputa pública; toda uma teia de discursos, de saberes, de análise e de injunções o investiram.  

                                                                   (Foucault, 2022, p.30) 

 

 

 O mesmo ocorre em relação as crianças, que devem ser ensinadas de acordo com o seu crescimento de forma gradual a lidar com o seu corpo e respeitar os corpos dos outros, assim como é feito hoje em dia nas escolas com os estudos de nosso sistema biológico e nossa anatomia, cruzando a fronteira imposta pelas estratégias de tecnologia do sexo imposta pela sociedade burguesa a partir da modernidade e até hoje, mesmo com todo progresso ainda tem suas contradições pedagógicas. 

 

 

O espaço das salas, a forma das mesas, o arranjo dos pátios de recreio, a distribuição dos dormitórios (com ou sem separações, com ou sem cortina), os regulamentos elaborados para a vigilância do recolhimento e do sono, tudo fala da maneira mais prolixa da sexualidade das crianças 

                                                                                                                (Foucalt, 2022, p.31) 

 

Os pedagogos fazem seus projetos que são analisados pelas autoridades, quando e se aprovado eles voltavam e aplicavam as recomendações cheias de conselhos médicos, advertências sobre as supostas perversões da carne. Colocando a irregularidade sexual como doença mental, o casamento não poderia acontecer sem o consentimento dos pais, além de uma enorme lista de pecados graves. 

 

A separação entre adultos e crianças, a polaridade estabelecida entre o quarto dos pais e o das crianças (que passou a ser canônica no decorrer do século, quando começaram a ser construídas habitações populares), a segregação relativa entre meninos e meninas, as regras estritas sobre cuidados com bebês (amamentação materna, higiene), a atenção concentrada na sexualidade infantil, os supostos perigos da masturbação, a importância atribuída a puberdade, os métodos de vigilância sugeridos aos pais, as exortações, os segredos, os medos e a presença ao mesmo tempo valorizada e temida dos serviçais, tudo faz da família, mesmo reduzida ás suas menores dimensões, uma rede complexa, saturada de sexualidades múltiplas, fragmentadas e móveis. 

                                                                  (Foucault, 2022, p.51 e 25) 

 

 

O discurso sobre o sexo nos últimos três séculos tem multiplicado por mais que tenham tentado abafar com suas proibições e fundamentações “morais”, religiosas ou evolucionistas, que pretendem eliminar os “portadores de taras” justificando seus preconceitos.  Fica claro que as relações de sexo tenham dado lugar ao casamento para criar parentescos e assim fazer a transmissão de bens. 

 

Na Grécia a verdade e o sexo se ligavam, na forma da pedagogia, pela transmissão corpo a corpo de um saber precioso; o sexo servia como suporte às iniciações do conhecimento 

                                                                       (Foucault,2022, p.69) 

 

BIBLIOGRAFIA: 

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I, A Vontade do Saber. Ed Paz e Terra. 14 edição. São Paulo, 2022 

                  

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